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23 de abril de 2018

Quadrilhas - Da tradição à estilização

Por Mariane Góis, Pedro Nascimento, Rivandson Teles, Yara Lima

Foto: Pixabay

É só terminar o Carnaval que as quadrilhas juninas intensificam os preparos para as apresentações que acontecem todos os anos no período junino. Uma tradição que surgiu há muito tempo e até hoje permanece viva na história do povo brasileiro, principalmente na memória do povo do nordestino.

Apesar da dança ser carregada de referências folclóricas, do matuto e outras características do Nordeste, pesquisadores da cultura popular revelam que essa manifestação artística surgiu em Paris, mais especificamente no século XVIII. Nessa época, a quadrilha, intitulada de "quadrille", era uma dança de salão formada por quatro casais. Diferente de hoje, que é uma cultura popular, ela era apresentada para a elite europeia. Mas, há registros de que essas danças também eram praticadas nas áreas rurais da França e Inglaterra.

Foi somente durante o período Regencial (1831-1840) que essa manifestação artística chegou ao Brasil, mais precisamente no Rio de Janeiro. Os passos eram uma febre no meio aristocrático e aos poucos foi se tornando popular no país. Quando se popularizou nas áreas rurais brasileiras, muitas mudanças aconteceram nos passos, comandos e outras características - provenientes da cultura brasileira - foram incorporadas. Permaneceu a celebração dos dias dos santos de junho, foram abandonados alguns passos franceses e outros reformulados - dando origem ao matutês, que é uma mistura do matuto com o francês (Alavantú, Anarriê, Caminho da Roça, Caracol, Olha a Chuva! É mentira, e outros), houve o aumento do número de pares de dançarinos, as roupas ganharam um colorido especial, e permaneceu a figura do marcador - que faz brincadeiras e conduz os casais em cada momento -, o casamento matuto, e outras alterações.

As quadrilhas continuam fortemente presentes na tradição junina, sempre embalando os dançarinos ao som de baiões e xaxados típicos das comemorações de junho, além da culinária típica desse período na Região Nordeste.As quadrilhas atuais - tradicionais ou estilizadas -, se apresentam nas comunidades, empresas, clubes, escolas e em concursos juninos, que tem como objetivo valorizar a tradição e exaltar a cultura da gente sergipana.

Mas, para mostrar todos os passos e brilho dessa expressão da cultura popular, existe muito preparo que vai de ensaios, passando pela confecção das roupas até chegar à tão esperada época junina onde as quadrilhas se apresentam para o público.

Entrevistamos membros das quadrilhas Apaga Fogueira, e da umbaubense Balanço do Nordeste, para entender melhor como funciona o processo de preparação para os festejos juninos.

Foto: Pixabay


BALANÇO DO NORDESTE

Dá licença que a Balanço vai passar e como passou, levando prêmios, aplausos e o titulo de campeã Estadual de 2017 pelo Concurso Arrasta pé da TV Atalaia em parceria com a Liquajuse (Liga de Quadrilhas Juninas de Sergipe). Com o tema “Pequeno em extensão, grande no coração, conheça Sergipe a terra do meu papagaio” a quadrilha junina Balanço do Nordeste trouxe ao publico retratos sobre a cultura sergipana, refletida nos figurinos, na coreografia e principalmente, na essência do grupo.


Integrantes da quadrilha Balanço do Nordeste / Foto: Rivandson Teles

Apesar de já contar com um título estadual, a Balanço possui apenas três anos de fundação, assim afirma o atual presidente Júlio Cesar Oliveira Ramos, que durante a entrevista, expõe um pouco sobre a trajetória da quadrilha. Segundo ele, no inicio a quadrilha levava o nome de Encanto Caipira sendo financiada pelos recursos da Escola Municipal Benedito Barreto do Nascimento onde era mantida para fins recreativos, contando apenas com apresentações nos colégios do município de Umbaúba. Porém, sob o comando do então presidente e marcador Júlio Cesar, nasce o desejo de se criar um grupo maior para disputar concursos por todo o estado de Sergipe, tendo o apoio inicial da Associação São Francisco de Assis. Dentro desse contexto, a até então Encanto Caipira muda o seu nome para Junina Balanço do Nordeste e já no mesmo ano dessa mudança a quadrilha disputava o seu primeiro concurso abordando o tema “Eu tenho fé que ela há de vir, para meu sertão voltar a sorrir” retratando a problemática da falta de água no sertão nordestino.

APAGA FOGUEIRA

Com 35 anos de tradição, a Apaga Fogueira é considerada uma quadrilha tradicional. Nasceu no bairro América, localizado na zona oeste da capital. Familiar, o grupo junino é administrado por Ana Maria Santos (presidente) e Jailda Santos (vice-presidente), mãe e filha respectivamente. “Iniciamos com minha mãe, ela sempre foi muito ativa, participava de questões culturais [...] quando ela casou aos 13 anos, veio morar no bairro América, e aqui sempre foi tido como um bairro violento, eu e meus irmãos ficávamos presos o dia todo e quando ela chegava, o momento que tinha de lazer era com a gente, resgatando as brincadeiras e dançando quadrilha, aí o pessoal daqui vinha e participava também [...] Foi mais pra tirar a gente da violência”, conta Jailda como surgiu a quadrilha.

A quadrilha atua também como projeto social, dando oportunidade às pessoas invisibilizadas pela sociedade, incentivando a participação desses cidadãos nos eventos realizados na comunidade e nos festejos juninos.

Luara, Josino e Jailda. Integrante, marcador e vice-presidente
Foto: Mariane Góis

O grupo que participou de todas as edições do Levanta Poeira, concurso realizado pela TV Sergipe, ficou com a vice-liderança em 2014. “Delírio de um Dilúvio” foi o tema designado para contar a história de uma quadrilheira que tenta resgatar a tradicionalidade da dança junina.

Foto: Pixabay

O PROCESSO DE CRIAÇÃO E A ESCOLHA DO TEMA

Em depoimento, Gilton Santos, o vice-presidente da Balanço afirma, “Quando a gente tá acabando um ano, a gente já tá pensando no outro”. A preparação para os concursos começam de fato com seis meses de antecedência. Por ser uma quadrilha recente e relativamente pequena, o grupo junino conta com inúmeros voluntários que fazem parte da gestão organizacional, responsável pela escolha do tema. O vice-presidente que também é o encarregado pela criação dos figurinos da quadrilha, fala que a decisão do assunto a ser abordado é imprescindível para se construir todo o enredo. Em conversa com o coreógrafo, Júlio César, ele conta que o método de criação dos passos é bastante longo e complicado. Primeiro há um processo de pesquisa e seleção das músicas, depois, as músicas são ouvidas inúmeras vezes, isso porque, é preciso que haja uma análise profunda das letras e principalmente do ritmo de cada canção, com isso, são criados os passos, as formações e consequentemente a coreografia completa.

Membros da quadrilha Balanço do Nordeste ensaiando. / Foto: Rivandson Teles

Já na Apaga Fogueira o processo de preparação começa em novembro, quando se dão início aos os ensaios, realizados no Centro Social do bairro, e vão até o mês de maio, como conta a integrante Luara Thaysa formada em dança pela Universidade Federal de Sergipe, “A gente começa recrutando algumas pessoas pra aumentar o número de quadrilheiros, porque muita gente sai, e em qualquer concurso a quadrilha só entra no arraial com oito pares de cada lado. Meu tio decide o tema, e aí vai montando as coreografias e passando pra gente, e a gente vai ensaiando até a apresentação.”

O tio a que Luara se refere, é Josino Santos, o marcador do grupo junino. À frente da quadrilha, ele conduz os quadrilheiros e tem como função principal manter a animação do grupo durante toda a apresentação. Ele também é responsável pela escolha do tema e coreografia e contou um pouco de como acontece esse processo. “Em relação à temática, a gente vai muito pelo nosso estilo, a gente não segue a linha da estilização, procuramos manter sempre a tradição”. Josino também falou sobre a escolha do tema desse ano, eles irão adaptar a música de Luiz Gonzaga, São João Sem Futrica, no intuito de fazer uma crítica ao atual contexto em que se encontram as quadrilhas sergipanas. “A gente vai tentar passar uma mensagem de como a crise chegou ao São João”, conclui.

Em suas identidades, as quadrilhas trazem uma forte ligação com a tradição, unindo os temas de suas apresentações às raízes do Nordeste, narrando e reescrevendo as histórias do povo nordestino através das coreografias e da emoção dos quadrilheiros. Aos poucos, a quadrilhas desenham, através da precisão e em passos firmes, a sua marca para contribuição da cultura sergipana.

Foto: Pixabay

A ROTINA DOS QUADRILHEIROS E OS CONCURSOS

Quando o espetáculo está pronto, a coreografia ensaiada e os quadrilheiros em formação a sensação de dever cumprido é visível. O publico aprecia, aplaude e vibra junto com movimento coreografado da quadrilha, que leva a tradição nordestina no ritmo e no coração. Na Balanço os dançarinos são jovens e em sua maioria, estudantes. Umas das dançarinas, Karolayne Havani, relata que a rotina é pesada, isso porque, durante a semana ela divide-se em estudar e memorizar as coreografias passadas nos ensaios. E apesar da preparação para os concursos acontecerem nos finais de semana, ela que é graduanda do curso de gastronomia na Universidade Tiradentes, conta que viaja todos os finais de semana para rever a família no interior e participar dos ensaios. Vale lembrar, que os quadrilheiros não recebem nenhuma remuneração, tudo é feito de forma espontânea puramente pelo amor a dança.

Ensaio da quadrilha Balanço do Nordeste. / Foto: Rivandson Teles

O casal de vaqueiros, destaque no ano de 2017, Raphael Ferreira e Edileide Santos, relata que exercer o papel de casal destaque é uma responsabilidade especial, não só por possuir figurinos e passos diferenciados, mas por exercer grande importância dentro do enredo a ser contado.

Foto: Pixabay

OS CONCURSOS

Em todo estado de Sergipe, acontecem inúmeros concursos entre eles o da Rua São João, o da TV Atalaia e o Levanta Poeira da TV Sergipe. Os critérios para avaliação das quadrilhas variam de concurso para concurso, em geral, eles são divididos em coreografia (xote, xaxado e baião), desempenho do marcador, o trio musical, harmonia e o traje.

Arquivo: Balanço do Nordeste

QUANDO ACABA O SÃO JOÃO...

A crise no São João, o excesso de estilização e o fim do tradicionalismo foram os assuntos que mais surgiram durante as entrevistas. As quadrilhas não escondem a sua insatisfação aos novos estilos de dança. Enquanto algumas acreditam em suas raízes e na tradição, outras seguem um caminho com mais brilho e cada vez menos regionalismo. Sobre isso, Josino, desabafa "Em dez anos eu tenho certeza que as quadrilhas tradicionais não vão mais existir. Vão ser só essas quadrilhas estilizadas com corpo de baile e a tradição vai morrer."

Outra forte crítica que a vice-presidente da Apaga Fogueira faz e que pretende abordar em seu enredo esse ano é a falta de investimento dos governantes na cultura de Sergipe. "Eles investem em shows, é isso que as pessoas querem. Tem bandas tocando e as tradições vão sendo esquecidas. A gente tem que bancar como podemos, as vezes a verba de novembro de 2015 chega em dezembro de 2016, depois que tudo acabou”, diz Jailda.

“A gente investe do nosso bolso, mas só o amor não basta. Quando acaba o São João só restam as dívidas.",

completa Josino.




  • Reportagem produzida como trabalho de conclusão da disciplina Linguagens e Técnicas de Reportagem, ministrada pela professora e jornalista Marcela Prado, do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Sergipe.
  • Originalmente, o trabalho foi feito para a plataforma Adobe Spark, que pode ser acessado clicando AQUI

14 de março de 2018

Aracaju e sua memorável estrutura arquitetônica


Por Anneli Rodrigues e Pedro Nascimento

O processo de urbanização de várias cidades brasileiras ocorreu de forma acelerada. Em Aracaju não foi diferente. Esses dados se mostram não somente em números, mas, também, em cada esquina, quarteirão ou bairro da cidade sergipana.

O que é visto hoje, são monumentos históricos que contrastam com edifícios modernos, shoppings, parques de lazer, calçadões com lojas comerciais, feiras locais, dentre tantos outros pontos turísticos - ou não - que foram construídos ao longo dos anos em que a cidade foi se desenvolvendo.

Palácio Museu Olímpio Campos, antiga sede do Poder Executivo (1856). (Fotos: Pedro Nascimento/Acervo IBGE)

Com todos esses avanços, muitas casas e prédios antigos aos poucos foram derrubados, reformados ou tombados como Patrimônio Histórico do Estado, como, por exemplos, o Palácio Museu Olímpio Campos e o Palácio Fausto Cardoso - que ambos possuem traços arquitetônicos característicos do neoclássico.

Esses monumentos arquitetônicos, por mais antigos que sejam, são considerados marcos na história de Aracaju, por isso toda essa importância e cuidado.

Palácio Fausto Cardoso, antigo prédio da Assembléia Legislativa do Estado de Sergipe (1868). (Fotos: Pedro Nascimento/Acervo IBGE)

O que vários edifícios históricos de Aracaju possuem em comum? A memória sergipana. É que desde a sua fundação, Aracaju tem passado por uma série de intervenções urbanísticas, no entanto, sem deixar suas marcas do passado, fazendo reviver a cada instante suas memórias retratadas na sucessão de gerações.

É importante ressaltar que, embora tenha acontecido várias transformações na estrutura de casas bastante antigas, por exemplo, com essas mudanças também puderam surgir novos padrões arquitetônicos, consequentemente, várias construções tornaram-se símbolos da capital sergipana.

Igreja de Santo Antônio, localizada na Colina do Santo Antônio, antigo Povoado do Santo Antônio da Cotinguiba. (Fotos: Pedro Nascimento)

Entre as quais resistiram ao tempo e continuam nas lembranças, estão, por exemplo, o antigo Colégio Atheneuzinho, o prédio da antiga Alfândega e o Palácio Serigy, que sucedeu o conhecido "Cadeião".

Palácio Ignácio Barbosa (1920), antiga sede da Prefeitura de Aracaju, localizado no Centro da Cidade. (Fotos: Pedro Nascimento/Acervo Prefeitura de Aracaju)

De qualquer forma, para que esses e outros patrimônios históricos continuem sendo conservados, é preciso recursos dos órgãos governamentais responsáveis pela preservação, como também a conscientização da sociedade. Ambos podem valorizar e defender os monumentos históricos que tanto dizem sobre a cidade dos cajueiros, berço de cultura e muita história para contar.

Paróquia São Pedro Pescador, localizada dentro do terreno do Aracaju Parque Shopping, no bairro Industrial. (Fotos: Pedro Nascimento/Acervo Aracaju Parque Shopping)

Igreja de São Salvador (1857), localizado no Calçadão comercial, localizado na Rua Laranjeiras. (Fotos: Pedro Nascimento/Acervo IBGE)

Centro de Turismo, antigo prédio da Escola Normal (1911), localizado no Centro. O prédio foi tombado como patrimônio histórico em 1984. (Foto: Pedro Nascimento/Acervo Sergipe em Fotos)

Catedral Arquidiocesana Nossa Senhora da Conceição (1875), localizada no Centro da Cidade. (Fotos: Pedro Nascimento/Acervo IBGE)

Cúria Metropolitana, antiga residência do conhecido italiano Nicola Mandarino (1883), suspeito de fornecer informações ao comandante do submarino alemão que torpedeou navios mercantes na costa sergipana. (Foto: Pedro Nascimento)

Museu da Gente Sergipana, antigo Colégio Atheneu Dom Pedro II, conhecido como Colégio Atheneuzinho (1926). O Museu foi inaugurado em 26 de novembro 2011 e fica localizado no Centro (Fotos: Acervo BANESE/Pedro Nascimento)

Centro Cultural de Aracaju, antigo prédio da Alfândega (1856), localizado na Praça General Valadão, no Centro da Cidade. (Foto: Pedro Nascimento)

Palácio da Cidadania, antigo casarão dos Rollemberg (1920), atual sede da Ordem dos Advogados do Brasil - Seccional Sergipe, localizado no bairro São José. (Foto: Pedro Nascimento)

Secretaria de Estado da Saúde, antigo Palácio Serigy. Está situada no mesmo local onde antes funcionava a Cadeia Pública de Sergipe (1872). (Foto: Pedro Nascimento)

Mercado Municipal Antonio Franco artesanato (1926). Ao fundo, o Edifício Estado de Sergipe (1970), que possui 28 andares e 96 metros de altura. O prédio é conhecido como Maria Feliciana, numa alusão à uma ilustre sergipana que já foi considerada a mulher mais alta do país. (Foto: Pedro Nascimento)


  • A fotorreportagem foi escrita por Anneli Rodriges e Pedro Nascimento - acadêmicos do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Sergipe (UFS). Faz parte de um trabalho final da disciplina de Fotojornalismo, ministrada pela professora Greice Schneider. 

  • O trabalho foi apresentado através da plataforma Adobe Spark, que pode ser acessar clicando AQUI

26 de abril de 2017

Antônio Edilson do Nascimento, o Tio Edilson do "DAA Informa"

Por Gonçalo Oliveira, Juliana Melo, Pedro Nascimento e Pedro Neto.

Foto: Adilson Andrade/AscomUFS

De um jeito divertido e irreverente, Antônio Edilson do Nascimento, 78 anos, faz com que seus e-mails informativos sejam não apenas volume na caixa de entrada dos alunos, mas de certa forma, patrimônio da universidade. Natural de Pernambuco, veio de Brasília para cá; e hoje, com 40 anos de UFS, já se considera sergipano. O motivo da sua vinda, foi um teste de Mestrado com o professor Eduardo Garcia. Em 1978, veio como professor. Atualmente, leciona a disciplina de Biofísica, fazendo parte do departamento de Fisiologia.

Edilson - com 18 anos de DAA, e sendo o atual diretor - está à frente do "DAA Informa", boletim aperiódico, criado com o objetivo de manter os discentes por dentro das novidades, eventos e das atividades que são desenvolvidas dentro da Universidade Federal de Sergipe.

Foi devido à demanda de alunos a procura de informações sobre diversos assuntos, que surgiu o site do DAA. Edilson relata que o site do DAA, tem uma página chamada "Fale Conosco" e através dela o "DAA Informa" surgiu. Foi durante um período de greve, que os alunos viviam a procura de informações para saber quando a greve terminava, foi ai que pensei: "Quero me livrar desse povo!". Então, eu disse: "Liégele (estagiário), já que temos os e-mails dos alunos cadastrados, não dá pra mandarmos uma mensgem pra me livrar desse povo aqui?". E foi assim que surgiu dessa necessidade de "me livrar dos alunos", explica entre risos.

 "Tio Edilson" em seu trabalho no DAA (foto: Pedro Neto)

O primeiro boletim informativo foi dedicado a explicar como usar o site do Departamento de Assuntos Acadêmicos. Na época, mais precisamente em Janeiro de 2002, Edilson até escreveu a palavra site com ç cedilha. A linguagem abordada - direcionada principalmente aos estudantes - foi o que chamou a atenção de muitos.

Primeiro e-mail do DAA para os alunos (foto: Gonçalo Oliveira)

De uma maneira engraçada, Edilson usufruiu de seu bom humor para tornar aquilo que deveria ser formal, em algo mais alternativo. "O que eu queria que saísse de um jeito, saiu de outro. Em certo dia coloquei uma musica no e-mail. Depois o pessoal começou a cobrar por mais. E aí surgiu a ideia do 'Vale a pena ler de novo'. Não tem nada a ver com aquele da Rede Globo". (Risos).

"Vale a Pena Ler de Novo" (foto: Gonçalo Oliveira)

Edilson comenta que nunca passou por nenhum tipo de censura; mantém uma boa relação com os funcionários do DAA.

Edilson no ambiente de trabalho (foto: Pedro Neto)

Mas, quem seria o Edilson fora do ambiente acadêmico?

Casado e pai de dois filhos, afirma que não é muito de sair. "Na minha idade, é daqui (DAA) para casa. De casa para cá". Relatou também gostar muito de ler. "Agora que comprei um leitor digital,... é uma maravilha", risos.

Assim, de uma forma leve e descontraída, seguiu toda a entrevista. E esse é o famoso "Tio Edilson", que poucos conhecem, mas muitos amam.




  • Reportagem produzida como conclusão da disciplina Técnicas de Produção, Reportagem e Redação Jornalística 1, lecionada pela professora Sônia Aguiar, do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Sergipe.

25 de abril de 2017

Reforma do Ensino Médio divide opiniões em Sergipe

Por Pedro Nascimento

Presidente Michel Temer sanciona Lei da Reforma do Ensino Médio (foto: Marcos Corrêa/PR) 


Desde que o governo Temer apresentou, em setembro de 2016, a Medida Provisória 746/2016 para a Reforma do Ensino Médio, o assunto vem sendo propagado pelos veículos de comunicação e, principalmente, abordado na web entre os próprios internautas. Pessoas contra, a favor e outras confusas em relação ao que foi proposto para a Reforma.

Mas, após tantas polêmicas, no dia 16 de fevereiro o Presidente Michel Temer sancionou a Lei que reforma o Ensino Médio.

A proposta, que foi aprovada pelo Congresso Nacional, prevê que a partir de 2019 a carga horária do Ensino Médio irá aumentar e a grade será mais flexível contendo matérias obrigatórias e optativas.

O texto aprovado determina que as escolas terão um prazo de 5 anos para aumentar a carga horária do Ensino Médio para 1.000 horas anuais, sendo assim, os alunos passarão a ter 5 horas diárias de aula. A meta ainda é aumentar, de forma gradual, para 1.400 mil horas para que ensino seja implantado totalmente de forma integral.

Quanto à flexibilidade da grade curricular, a Lei estabelece que 60% dela será obrigatória e composta por Português, Matemática, Artes e Educação Física. Já os 40% restantes serão definidos segundo a proposta da escola e escolhidos pelos estudantes conforme a formação profissional desejada. Para compor os 40% o colégio poderá oferecer disciplinas nas áreas de Linguagens, Matemática e suas Tecnologias, Ciências da Natureza, Ciências Humanas e Sociais Aplicadas, além de Formação Técnica e Profissional.

Segundo o Ministério da Educação (MEC), a reforma do Ensino Médio se dá pela realidade trágica do ensino no país, e que essas modificações já vinham sendo discutidas há anos, o que contribuiu para que o governo pudesse acelerar ainda mais as mudanças.

Seguindo na corrente contraria, a União Brasileira de Estudantes Secundaristas (Ubes), diz que a nova proposta desvaloriza o pensamento crítico do estudante. "A reforma propõe uma formação tecnicista, mecânica, que se dedica apenas a atender as demandas do mercado e não compactua com o desenvolvimento de indivíduos pensantes, cidadãos preparados para a vida e para a diversidade típica do país", justifica.

Mudanças: escolas particulares X escolas públicas

Em Sergipe, alguns coordenadores de escolas públicas foram procurados mas não puderam comentar sobre a reforma do Ensino Médio. Uma fonte revelou que alguns, de certa forma, acabam sendo censurados por serem de cargos indicados, o que possivelmente pode levá-los a perder o emprego. Mas em conversa Manoel Junior, 37 anos, Coordenador do 3º ano do Ensino Médio de uma escola particular de Aracaju, no bairro Siqueira Campos, vê como positiva essa reforma do governo, mas que será um desafio para o estudante brasileiro se adaptar a todas essas mudanças a curto prazo. Ele acha que é preciso haver um preparo cultural.

"Eu vejo com bons olhos, porque é necessário que o aluno tenha um conhecimento básico e que ele busque de fato um aprofundamento em áreas específicas, de acordo com o grau de interesse dele, pelo menos um núcleo comum. Essa primeira geração de alunos que receberão o impacto dessas transformações, será um público que terá maior dificuldade de adaptação", comenta. Ele ainda considera que, mesmo com esse desafio que o aluno vai ter, há benefícios.

"Quando você direciona o estudo para o aluno, isso possibilita que a aula se torne mais prazerosa e quando a gente fala no prazer a gente está trabalhando com toda uma matriz de competências e habilidades que é específica do público discente. Então depende muito do aluno e da área que ele quer seguir".

Com todas essas mudanças as escolas também precisarão enfrentar alguns desafios para se adaptar ao novo Ensino Médio. Segundo Manoel, a escola precisará capacitar os professores para que eles estejam preparados para a nova realidade, além de melhorar a infraestrutura do colégio para receber o aluno em tempo integral, colaborando para que esse aluno possa aprofundar seus estudos com o auxílio de laboratórios, por exemplo.

Para o Coordenador, o que pode atrapalhar a implantação desse modelo é o custo de todas as modificações que serão necessárias. "Querendo ou não, nós ainda estamos passando por uma crise econômica no país. Estamos começando a engatinhar para sair dela, só que essa crise ainda tende a se arrastar por um tempo, então como falar em aumento de despesas na escola e aumento de mensalidade?", declara. Manoel acredita que será mais prático a implantação do novo modelo de ensino nas escolas públicas, pois as particulares irão demorar alguns anos para atingir esse objetivo.

O Sergipano e as incertezas

A reforma vale para escolas públicas e particulares, mas os investimentos que o governo federal vai fazer será nas escolas públicas, onde a previsão é que sejam injetados R$ 1,5 bilhão até 2018. Segundo o Senado, esse dinheiro será usado para "o aperfeiçoamento dos profissionais de educação; para compra, reforma e conservação de instalações; para o uso e manutenção de bens e serviços; para atividades-meio e para a compra de material didático e custeio de transporte escolar".

A professora de Educação Física Dansilvia Oliveira, 52, acha que a flexibilização da grade curricular é excludente, pois limita o conhecimento do aluno e, consequentemente, a implantação do tempo integral vai atrapalhar os estudantes que precisam trabalhar, fazendo com que obrigue o aluno a abandonar as aulas. "A gente entende que o estudante de escola pública é um aluno trabalhador, e o aluno que é trabalhador não vai ter como ficar 4, 5 anos no Ensino Médio. Ele vai desistir. Então é uma forma, que eu vejo, de também brecar o acesso do aluno das classes populares ao ensino e, por conseguinte, ao ensino superior, porque é o tipo de aluno que ele vai num determinado momento evadir da escola", avalia.

Além disso, Dansilvia - que há 31 anos ensina em escolas públicas - diz que toda essa modificação da grade curricular poderá prejudicar os professores de diversas áreas. "Na medida em que essas disciplinas vão sendo aos poucos excluídas no ano que os alunos estudam, evidentemente que vai ter professores que estarão à disposição e no futuro breve demitidos. Isso também com qualquer outra disciplina, não somente com Educação Física. E não vai só afetar os professores que estão atuando, vai afetar inclusive todos os cursos de licenciatura, porque na medida que determinadas disciplinas vão sendo optativas e terão sua carga horária reduzida, é lógico que no futuro bem próximo não haverá demanda para que absorva professores para atuarem, sem contar a previsão do ensino pelo notório saber. Então é uma total desvalorização do magistério como um todo".

Para o professor de Geografia Richardson Batalha, 36, os docentes da área em que ele atua não serão afetados pelas alterações que serão realizadas com a implantação do novo Ensino Médio. "Dentro dessa flexibilização o que vai acontecer é que se a carga horária naquela escola não irá aportar Geografia de uma forma plena, o professor vai ser encaminhado para outra escola para complementar a carga horária, e isso na realidade já acontece", analisa.

Richardson acha que essa flexibilidade curricular será positiva para o aluno pelo fato de que o estudante poderá optar por áreas do conhecimento que ele possui mais afinidade, assim tendo uma maior habilidade e desenvolvimento intelectual. Mas ele ressalta que também há riscos. "O jovem em si ele pode não ter maturidade suficiente para escolher qual será no futuro a sua profissão. Em contrapartida, eu acho que dentro desses riscos o próprio governo deveria implementar profissionais encarregados de desenvolver nesses alunos um processo avaliativo, para que eles pudessem de fato ao longo do ensino médio desenvolverem qual realmente a área ou a profissão que eles irão seguir".

Victor Mendonça, 17, calouro do curso Design Gráfico da Universidade Federal de Sergipe, acha que o maior desafio dos alunos que irão passar por essa nova fase do Ensino Médio será de fazer a escolha de qual área pretende seguir profissionalmente. "Iniciei meu Ensino Médio sem conhecer vários cursos e apenas decidi qual iria fazer no 3° ano. Então acho que será uma responsabilidade enorme na mão de jovens muito novos que muitas vezes só conhecem profissões que seus pais indicam". Victor vê a reformulação de forma positiva até determinado ponto. Para ele, é muito interessante aprofundar os conhecimentos em áreas específicas, mas sem deixar de ter uma boa base em todas as outras - já que cada uma tem sua importância.

O estudante de Ciência da Computação José Oliveira, 21, acha a reforma válida, mas ressalva que é preciso ver seu andamento para melhor opinar. Com as informações já disponíveis, há algo aproveitável em toda essa reformulação. "Creio que o maior desafio será de o aluno se adequar ao tempo de aula integral para aqueles que estudam somente em um turno. De resto, creio que será confuso para alguns o funcionamento das disciplinas".


A publicidade das informações e seus receptores

Desde que a Medida Provisória chegou a conhecimento da população, o governo federal vem gastando milhões de reais dos cofres públicos  na veiculação de propaganda da reforma do Ensino Médio nos canais de televisão de todo o país. Segundo o site Quanto Custa, para anunciar por apenas 30 segundos no intervalo da novela das 21h, da Rede Globo, é preciso desembolsar R$ 715.100,00.

Além da TV, o governo vem investindo em propagandas no rádio e na internet, dois outros meios de comunicação que possuem muitos receptores.

Foto: reprodução/YouTube

Na edição de 17 de Fevereiro de 2017, a Folha de São Paulo publicou uma reportagem falando sobre o pagamento de R$ 65 mil reais feito pelo governo para o canal "Você Sabia" - que conta com mais de 7,1 milhões de inscritos no YouTube. O dinheiro foi usado para que os dois vlogueiros do canal - Lukas Marques e Daniel Molo - falassem bem sobre a reforma num vídeo intitulado de "Tudo que você precisa saber sobre o novo Ensino Médio!!". No vídeo, da forma mais natural possível, os dois jovens explicam os benefícios da nova reforma sem deixar transparecer em nenhum momento que o vídeo é um publieditorial. Ainda segundo a Folha, o MEC informou que outros cinco canais do YouTube foram contratados, o que significou um custo total de R$ 295 mil reais. A reportagem da Folha ainda apurou que outros dois canais foram procurados, mas não aceitaram a proposta.

A jovem Sofia Freira, 12, estudante do 8º ano, explica que ficou sabendo da reforma do Ensino Médio através dos jornais e porque a família dela comenta bastante sobre o assunto em casa. Sofia, que sonha em ser uma Juíza, contou que os professores também já conversaram com os alunos da turma em que ela estuda. Eles explicaram como serão as mudanças e opinaram a respeito. Assim, ela chegou à conclusão de que a reformulação será uma boa medida, mas acha que não vai funcionar tão bem devido à cultura dos alunos da atual sociedade. Sofia disse que sua mãe também concorda que essas mudanças do Ensino Médio não serão tão boas assim como vem sendo repercutido. "Por exemplo, nós temos um aluno que vai escolher estudar tais matérias, mas se ele no futuro decidir que não era aquilo que ele queria pra vida dele, ele não terá mais condições para voltar atrás. Ele terá que recomeçar tudo de novo e isso poderá prejudicar alguns alunos no futuro. Então, ela também concorda com essa opinião de que talvez não dê muito certo", relata.

Pedro Felipe, 15, aluno do 8º ano, revela não estar tão informado sobre a flexibilidade da grade curricular, mas que ficou sabendo - através da televisão - sobre o MédioTec, programa do governo que é destinado a ofertar formação técnica e profissional a estudantes do ensino médio. Pedro, que pretende cursar Engenharia Mecânica, vê o programa como uma oportunidade para iniciar sua carreira profissional na área. "Você pode fazer o ensino médio já começando a trabalhar em seguida. Eu achei isso muito bom e quando eu for pra o ensino médio eu já poderei estar ganhando meu próprio dinheiro", imagina.

Foi assistindo aos telejornais, às propagandas do governo na TV e tendo acesso à internet que Samara Aragão, 13, aluna do 8º ano, ficou mais informada sobre reformulação do Ensino Médio. Ela e seu pai - que é pedagogo - acreditam que a reforma será positiva e que vai ajudar muito aos alunos que ainda não decidiram a profissão que pretendem seguir. Ela ainda destaca o MédioTec e seu benefício. "Eu acho bom, porque assim a gente pode decidir o que a gente quer ser. Aquele (aluno) que não quer uma graduação, poderá fazer um curso técnico". Quando questionada sobre a área que pretende seguir, Samara foi rápida e objetiva: "Engenharia Civil".

A remodelação do ensino médio vem com a intenção de dar essa autonomia ao aluno para que ele escolha diferentes trilhas de formação e formação técnica, mas essas transformações tão recentes ainda estão deixando dúvidas no ar, tanto por parte dos discentes como também dos docentes.

Diferente de Sofia, Pedro e Samara, muitos outros alunos ainda estão indecisos quanto à profissão que pretendem exercer no futuro. E esse é um futuro que está bem próximo.

Mas com essa reforma, o que esperar do futuro da educação no Brasil? A pequena Sofia tem a resposta: "Que os estudantes se sintam e estejam mais preparados para seguir a carreira que escolheram. Afinal, vão passar a se dedicar a matérias que englobam suas futuras carreiras, e que passem a ter uma ideia política, já que essa reforma foi discutida nesse meio".

Um desejo geral é que esses novos estudantes possam se adaptar ao novo ensino, assim, desenvolvendo suas habilidades e usufruindo de seus conhecimentos para que possam contribuir ainda mais para o crescimento da nação. Acima de tudo, que o aluno construa seu próprio futuro.
  • Reportagem produzida para o jornal Contexto Repórter com publicação para o dia 06/03/2017.
  • Disciplina: Técnicas de Produção, Reportagem e Redação Jornalística 1, lecionada pela professora Sônia Aguiar, do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Sergipe.